Coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro quer trocar concursos federais por inteligência artificial
A coordenadora da área econômica da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), a economista Daniella Marques, defendeu que o Governo Federal deixe de abrir concursos para repor servidores que se aposentam e passe a usar inteligência artificial (IA) no lugar deles. A declaração foi dada em entrevista ao podcast G4 e acende um alerta para quem estuda para concursos federais: Daniella coordena o núcleo que formula as propostas econômicas da candidatura e já foi apontada por Flávio como possível ministra.
Resumo
- Quem disse: Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, ex-presidente da Caixa e possível ministra num eventual governo.
- O que propõe: não fazer novos concursos federais para repor aposentadorias e substituir essas vagas por atendimento com IA, aos poucos.
- Onde disse: no podcast G4, em 30 de setembro. O tema já tinha aparecido no programa Pânico, da Jovem Pan, em 6 de agosto, e no 25º Fórum Empresarial do Grupo Lide, também em agosto.
- Por que importa: o que ela diz indica o que a candidatura pretende fazer no governo, e os concursos federais seriam os primeiros afetados.
- O que ela não disse: quais carreiras seriam afetadas, quantas vagas deixariam de existir e como o atendimento à população seria mantido.
O que Daniella Marques disse
Segundo a economista, a ideia é substituir os servidores federais à medida que eles forem se aposentando, sem abrir novos concursos para essas vagas. No podcast G4, ela resumiu assim:
“E aí substitui e faz outro concurso pra gente pagar? Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?”
Daniella Marques, no podcast G4
De acordo com o JC Concursos, ela falou em chegar a cerca de 12 milhões de servidores se o modelo também fosse adotado por governadores e prefeitos. Esse número corresponde, na prática, a quase todo o funcionalismo do país, somando União, estados e municípios.
Quem é Daniella Marques e por que a fala pesa
Daniella Marques não é uma comentarista de fora da campanha. Ela coordena o núcleo econômico de Flávio Bolsonaro, participa da formulação das propostas e organiza o grupo de especialistas da candidatura. No governo Jair Bolsonaro, foi presidente da Caixa Econômica Federal e integrou a equipe do ex-ministro da Economia Paulo Guedes.
Em 24 de agosto, num evento da revista Veja em São Paulo, o próprio Flávio citou Daniella ao falar da equipe de ministros que pretende montar, sinalizando que ela pode fazer parte do primeiro escalão de um eventual governo. Por isso, a proposta de trocar concursos por IA deve ser lida como uma intenção da candidatura, e não como uma opinião isolada.
Linha do tempo: quando o tema apareceu
- 6 de agosto, programa Pânico (Jovem Pan): questionou quantas carreiras administrativas poderiam ser substituídas por tecnologia nos próximos 5 ou 10 anos, como forma de cortar gastos.
- Agosto, 25º Fórum Empresarial do Grupo Lide: defendeu, diante de empresários, a revisão de carreiras administrativas e operacionais por causa dos avanços da IA, ligando a medida ao enxugamento do Estado.
- 30 de setembro, podcast G4: propôs usar IA no lugar de novos concursos para repor aposentadorias.
- 19 de outubro, de volta ao Pânico: respondeu às críticas e disse que suas falas estavam sendo distorcidas.
A resposta às críticas
Depois de ser criticada por entidades de servidores, a coordenadora afirmou no Pânico:
“Eles fazem vídeo me ridicularizando de que todas as carreiras, os servidores serão substituídos por inteligência artificial.”
Daniella Marques, no programa Pânico, em 19 de outubro
Na mesma entrevista, ela disse que, “quando é um inchaço, uma ineficiência, uma coisa perdulária, fica todo mundo ganhando mal”. Mesmo assim, não detalhou quais carreiras pretende substituir, em que quantidade, nem por que a proposta poderia ser estendida a estados e municípios. A campanha também não informou se a medida fará parte do programa de governo.
Em 9 de outubro, o Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no Estado do Rio de Janeiro (Sisejufe) publicou um texto sobre os riscos de trocar servidores por IA.
Veja o vídeo
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O Brasil tem servidores demais? O que os números mostram
A proposta parte da ideia de que a máquina pública brasileira é “inchada”. Os dados internacionais não confirmam isso. No Brasil, 12,3% dos trabalhadores estão no serviço público, segundo a PNAD Contínua de 2024 compilada pela República.org. Nos países da OCDE, que reúne as economias mais desenvolvidas, a média é de 18,4%.
| País | Servidores, em % de todos os trabalhadores |
|---|---|
| Noruega | 30,1% |
| Suécia | 28,2% |
| França (G20) | 20,7% |
| Canadá (G20) | 20,2% |
| Média da OCDE | 18,4% |
| Reino Unido (G20) | 17,1% |
| Austrália (G20) | 15,6% |
| Estados Unidos (G20) | 14,6% |
| Itália (G20) | 13,7% |
| México (G20) | 13,6% |
| Turquia (G20) | 13,0% |
| Brasil (G20) | 12,3% |
| Alemanha (G20) | 11,5% |
| Coreia do Sul (G20) | 8,6% |
| Japão (G20) | 4,9% |
Ou seja: o Brasil tem, proporcionalmente, menos servidores que França, Canadá, Reino Unido, Estados Unidos e a média dos países desenvolvidos. Entre os membros do G20 da tabela, fica atrás de oito e à frente de três. A própria OCDE lembra que o tamanho do funcionalismo reflete escolhas de cada país: em alguns, a maioria dos professores, profissionais de saúde e socorristas é servidora pública; em outros, esses serviços são prestados por organizações privadas pagas pelo Estado.
Onde estão os servidores
São cerca de 12,5 milhões de profissionais públicos no país. A maioria não trabalha em Brasília:
- 61,3% estão nos municípios;
- 23,9% nos estados;
- apenas 7,8% na União, o Governo Federal.
Por isso, a conta de “12 milhões” só fecha se prefeitos e governadores aderirem. A decisão de um presidente sobre concursos federais alcança menos de 8% do funcionalismo.
O que os servidores fazem
Seis em cada dez vínculos públicos civis estão em três grupos de ocupação, segundo dados da RAIS de 2023:
- Profissionais de ensino: 27,9% (cerca de 3 milhões, a maioria professores do ensino fundamental);
- Serviços administrativos: 17,3% (cerca de 1,9 milhão);
- Medicina, enfermagem e saúde: 14,8% (cerca de 1,6 milhão, com destaque para técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde).
E é desse serviço que a maior parte da população depende: 75,3% dos brasileiros usam exclusivamente o SUS, e 79,8% das crianças e adolescentes da educação básica estudam em escolas públicas.
Por que o argumento é frágil
- Não há excesso de servidores. Em proporção à força de trabalho, o Brasil está abaixo da média da OCDE e de boa parte do G20.
- A maioria trabalha na ponta. Professores, técnicos de enfermagem e agentes de saúde são o grosso do funcionalismo. Uma IA não dá aula, não faz curativo nem visita famílias.
- O Governo Federal é uma parte pequena. Só 7,8% dos profissionais públicos estão na União. A cifra de 12 milhões depende de estados e prefeituras.
- Faltam detalhes. Não foram apresentados carreiras, números, prazos nem estudo de impacto sobre o atendimento à população.
O que muda para quem estuda para concursos
Num eventual governo Flávio Bolsonaro, o impacto mais direto seria nos concursos federais. A abertura de concursos para o Executivo Federal depende de autorização do próprio governo, então a regra de não repor aposentadorias poderia ser aplicada logo no início do mandato, sem passar pelo Congresso.
- Carreiras mais expostas: as administrativas e operacionais, as mais citadas pela própria economista. No Governo Federal, os trabalhadores de serviços administrativos formam o maior grupo de ocupação, com cerca de 196 mil vínculos.
- Menos vagas novas: sem reposição de quem se aposenta, cairia o número de concursos e de vagas oferecidas pela União.
- Estados e municípios: a própria economista falou em estender o modelo a governadores e prefeitos. Lá está a maior parte das vagas, mas a decisão caberia a cada um deles.
A campanha ainda não informou se a medida estará no programa de governo oficial. Para quem se prepara para concursos federais, vale acompanhar as propostas das candidaturas até a eleição.
Fontes
- JC Concursos: “Eleições 2026: Daniella Marques diz que pretende substituir concursos do Governo Federal por IA”
- ICL Notícias: “Coordenadora de Flávio sugere trocar servidores públicos por inteligência artificial”
- Revista Oeste: “Flávio sinaliza Daniella Marques para eventual ministério”
- OCDE: Government at a Glance 2025, “Employment in general government”
- República.org: Anuário de Gestão de Pessoas 2025 (PDF)
- Vídeo no Instagram
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